É manifesto que a filosofia, ao longo de grande parte da sua história, sempre realçou que a moralidade é para estranhos. Creio que isto não é por acaso, antes advém da nossa linguagem de símios. Quando pensamos na sociedade como uma coleção de estranhos, somos levados a pensar na moralidade como uma forma de cálculo através do qual procuramos alcançar o melhor resultado (segundo um qualquer padrão de “melhor”) para todos os envolvidos. E calcular é o que o primata em nós faz melhor. Nós não olhamos para os nossos colegas primatas; vigiamo-los. Manipulamos, conspiramos, computamos as probabilidades, avaliamos as possibilidades; sempre à espera da oportunidade para sacar alguma vantagem. As relações mais importantes das nossas vidas são avaliadas em termos de superavit e de défice, lucro e prejuízo. O que tens feito por mim ultimamente? Satisfazes-me? O que ganho em estar contigo, o que perco? Consigo melhor?
O calculismo dirigido à sociedade como um todo – o calculismo moral em vez do precavido – é simplesmente uma extensão dessa capacidade básica. Para nós, primatas, é natural pensar-se em termos contratuais, porque o contrato não passa de um sacrifício deliberado em troca de um proveito antecipado. A ideia de contrato é apenas uma codificação – um tornar explícito – de algo que está profundamente imbuído em nós. O calculismo corre para o âmago do contrato e para o coração do primata que há em nós. O contrato é uma invenção dos primatas para os primatas – não pode dizer absolutamente nada sobre a relação entre um primata e um lobo.
Mark Rowlands – O filósofo e o lobo
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